Um acidente numa manhã de segunda-feira

Um acidente numa manhã de segunda-feira

No final do ano passado escrevi um relato chamado “Acidente numa manhã de terça-feira” aqui no blog. E São Paulo é uma cidade no mínimo curiosa: quando a gente menos espera, esbarra em um personagem antigo da nossa história sem perceber. E hoje foi exatamente isso que aconteceu.

Diferente das últimas semanas, hoje resolvi não colocar meus enormes fones de ouvido ao entrar no ônibus para ir trabalhar. Senti vontade de ler e, por isso, após entrar no coletivo e passar a catraca, me pus em pé naqueles espaços vazios que ficam ao lado das cadeiras retráteis reservadas para deficientes físicos (imagino que o espaço sirva tanto para cães-guia quanto para cadeiras de rodas), peguei meu leitor de e-Books e devorei algumas páginas.

onibus-spAo encostar num ponto mais à frente, ouço um falante senhor entrar no ônibus. Ele dava bom dia para todos – do motorista aos passageiros, até passar pelo cobrador. Ele pediu o lugar para uma menina que havia se sentado no banco retrátil à minha frente, disse ser deficiente físico. Ela fechou sua bolsa – que estava aberta naquele instante – e levantou-se, cedendo o lugar.

Ao se sentar à minha frente, percebi que seu cartão do plano de saúde estava aparecendo por trás da lapela da jaqueta. Por precaução, resolvi avisá-lo de que poderia cair. Ele agradeceu, mas me mostrou (puxando o cartão) que ele estava na verdade preso em um cordão.

Alguns segundos se passaram, e quando eu voltava para a minha leitura o falante senhor me interrompeu. Ele pegou aquele mesmo cordão e me mostrou uma medalha com um símbolo vermelho:

– Olha só… 35 anos servindo os bombeiros aqui em São Paulo. No fim do ano passado fui atropelado na esquina da Paulista com a Brigadeiro, fiquei em coma por 3 meses, e agora estou assim. 

Neste momento ele me mostrava uma grande cicatriz, que ia da nuca até a parte superior da sua orelha direita. Ele continuou:

– A única coisa boa foi isso aqui: agora ando de ônibus, avião e até navio de graça.

Ele me mostrava seu “Passe Livre”, em que indicava ser (agora) deficiente físico, com dificuldade de locomoção. Eu então o retruquei:

– Sim, é uma coisa boa, se é que existe alguma coisa boa nisso tudo, né?

Ele assentiu com a cabeça. Desliguei meu leitor de e-Books e conversamos mais uns minutos, até que chegou o ponto em que desceríamos. Sim, eu e ele descemos juntos naquele mesmo ponto de ônibus do meu relato anterior. Uma grande ironia do destino, ou talvez uma forma divina de me mostrar que quando estamos abertos a possibilidades diferentes, podemos escrever novas histórias… Boas histórias.

O acidente desta segunda-feira não foi um atropelamento (ufa!), mas um encontro peculiar com um falante senhor, que não tem a menor ideia de que já se transformou em duas histórias no meu blog, e que por duas vezes já me fez repensar a minha vida.

Se pudesse, daria outra medalha para ele.
Ele com certeza merece.