Um acidente numa manhã de terça-feira

Um acidente numa manhã de terça-feira

Hoje cedo um senhor foi atropelado na minha frente, enquanto eu ia para o trabalho. Rapidamente muita gente se juntou em volta do local: alguns tentavam ver a cena (por pura curiosidade), outros se importavam com o estado de saúde dele e queriam ter certeza que aquela não teria sido sua hora.

Ele aparentava ter seus 55 anos e estava com roupas mais sérias. Talvez  estivesse indo trabalhar e, apressado, não viu o ônibus chegar. Talvez ele tenha uma família, que talvez ainda não saiba o que aconteceu nesta manhã. Talvez estejam todos se preparando para curtir o Natal, pensando no que vão comer e que roupas vão vestir.

Matamos formigas sem perceber que também somos formigas.

Eu chorei. Uma mulher, de uns 30 anos, depois de tentar ver o estado de saúde daquele senhor por alguns minutos, o viu de relance e teve ânsia. Mas eu não: eu chorei.

Temos um relance de vida nas nossas mãos, e a passamos envolvidos numa casca que parece forte, mas não é. Construímos máquinas incríveis para nos aproximarmos uns dos outros, mas um leve descuido as transformam em assassinas.

O senhor foi, então, levado para a ambulância na maca. Seu braço direito foi amputado, após ter ficado preso embaixo da roda da frente do ônibus. Sangue, tristeza, enjoo, choro, sirene. Ele segue seu caminho, agora dentro de outra máquina e com a vida nas mãos de homens que ele ainda nem conhece.

E eu sigo meu caminho de formiga, indefeso e pequeno, num mundo cheio de problemas cotidianos. Pego o elevador do trabalho, e ouço uma pessoa falar: “que calor hoje, né?”

Quem me dera isso fosse um problema.