Amor além da conta e a minha nova tatuagem bichérrima

Amor além da conta e a minha nova tatuagem bichérrima

Parecem bolinhas coloridas, mas você precisa conhecer a história completa.

Tudo começou com o meu vlog lá no YouTube, e o “Falando Bichice“. Eu estava me propondo a falar sobre temas densos do universo gay de maneira descontraída. Mas um dia, olhado para os materiais, eu percebi algo terrível: eu era um homem branco cis-gênero de classe média.

Afinal, quem eu representava no final do dia?
E qual a minha representatividade para temas densos do universo gay?

Claro que eu já sofri preconceito. Já apanhei na rua aos 19 anos saindo de uma balada de mãos dadas, já ouvi insultos de pessoas nas ruas, já fui menosprezado e chamado de bicha até por familiares. Mas a minha luta não chega nem aos pés do que 99% da população LGBT tem que enfrentar no dia a dia.

Então eu me calei por uns tempos. Precisava pensar sobre tudo isso, sobre como eu poderia fazer a minha parte, usando para isso apenas eu mesmo, minha experiência e vivência. Nada de me apropriar de coisas que não fazem parte da minha vida, ou tentar representar quem não é representado, e tirando o foco das falas destas pessoas. Eu estava perdido, e precisava me encontrar.

Eu sou um gay de classe média branco cis-gênero que trabalha numa empresa de mídia. E eu percebi que o meu papel era justamente esse: transformar a minha inclusão na sociedade como porta de entrada para quem ainda não estava por ali, colocando o assunto em pauta e oferecendo ‘palanque’ para quem realmente precisa falar e merece ser ouvido.

Eu não sou personagem, eu sou meio.

Amor Além da Conta

Durante o feriado de Corpus Christio quão irônico é isso? – recebi uma mensagem de voz de uma amiga que trabalha como colaboradora lá na TV Gazeta. Um amigo dela buscava por um casal homossexual para participar da próxima campanha de Dia dos Namorados da marca Natura. Ela lembrou de mim e do meu marido e ofereceu para nos colocar em contato.

Aquilo me deu um estalo.

Era isso que eu devia fazer, essa era a minha luta: colocar a pauta gay onde ela não estava ainda. Aceitei a proposta, que consistia em um jantar surpresa num restaurante (delicioso, by the way). Eu estaria com microfone escondido, e o meu marido não deveria saber de nada. Pela participação, recebemos uma “ajuda de custo” simbólica (um pequeno cachê), um kit do Kaiak Aventura (maravilhoso, diga-se de passagem) e o jantar, pago com selfies de beijos, abraços e tudo mais que representasse nosso amor. Colocamos o nosso amor, em sua mais pura forma, em pauta.

A campanha já está oficialmente no ar:

E o que fazer com o cachê?

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“A Minha”

Lá em cima em comentei que eu era de classe média.
Então, porque o cachê teria importância?

Pois ele se transformou em tatuagens: nas minhas, e nas do meu marido. Ou seja: 100% do valor foi revertido em marcas da luta por respeito, liberdade e amor. Um presente que levaremos para o resto das nossas vidas. Que nos farão lembrar de onde viemos, como vivemos, e para onde queremos ir. Tudo isso acompanhado de muito amor e bom humor.

A minha tatuagem é a seguinte: as sete cores do arco-iris, posicionadas como nascentes nos meus dois antebraços. Se unidas, fariam um arco-iris atravessar todo o meu peito. A posição delas no antebraço também é proposital: é para que camiseta nenhuma as esconda. Jamais.
Representam o meu mundo, e devem estar sempre visíveis.

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“A Dele”

A do meu marido são um sinal de igual na panturrilha esquerda e um triângulo na direita. Poucos sabem, mas o triângulo rosa era usado para identificar homossexuais nos campos de concentração nazistas. Por isso a escolha dos símbolos: o ‘igual’ representa justamente a igualdade de gêneros, enquanto o ‘triângulo’ representa a luta por direitos civis.

E é só a parte 1…

Essa é só a primeira parte de alguma mudanças que eu estou prevendo para mim mesmo, para a minha postura e – claro – para o meu futuro. Mas eu não vou ficar falando sobre isso, e minha intensão também não é forçar situações e conversas acaloradas sobre o tema.

Eu não me considero um ativista da causa gay, mas este é o meu objetivo. Vou me informar, vou ler, vou compartilhar, vou discutir e – sempre que possível – oferecerei palanque para quem tem algo importante a dizer. Seja aqui no blog, nas redes sociais ou até apoiando pautas sobre o tema no meu trabalho.

É um movimento contínuo, que já começou e não tem prazo para acabar.