Microconto: “Risada Ilícita”

Microconto: “Risada Ilícita”

Os dois rapazes riam como se não houvessem problemas no mundo. Sentados na calçada, em frente a uma porta metálica de um comércio qualquer, aquelas risadas faziam uma melodia nada usual com o pôr do sol urbano.

Um carro de polícia passou, eles nem sequer o viram.

Mas o carro voltou, e parou à sua frente. Dois seres cinzas cresciam porta afora, com o sol já laranja às suas costas, criando uma cena digna de um prêmio cinematográfico. As risadas, enfim, diminuíam em uníssono à penumbra.

– Você estão consumindo alguma coisa ilícita por aí? – perguntou um dos policiais.
– Desculpe, polícia, mas a única coisa ilícita aqui é felicidade – respondeu um deles, dando um novo início às risadas de outrora.

Ambos foram encaminhados para a delegacia, acusados de “Perturbação do Sossego Alheio”. Não antes de sentir o gosto salgado do sangue, misturado ao amargo emborrachado do cassetete.