Esqueça o mundo: seja uma boa pessoa

Esqueça o mundo: seja uma boa pessoa

Você já se sentiu com sorte por ter se tornado uma pessoa boa, mesmo tendo uma série de experiências ruins na infância ou adolescência?

Para fazer o papo fluir, vou contar uma história para vocês: certo dia, na minha infância, fui repreendido por fazer uma coisa boa (ou que eu considerava assim). Uma amiga e eu andávamos de patins pelas ruas de um condomínio fechado, quando ela resolveu ir até uma ladeira grande e íngrime demais para a nossa capacidade técnica. Assim que começou a descer ela percebeu que tinha feito merda e eu, sem pensar, peguei impulso, fui atrás. Juntos, um do lado do outro, descemos a tal ladeira. Usei meu freio para nos parar ao final e, com a perna tremendo, sentamos em um gramado. Ela me agradeceu.

Mais tarde, ao contar a história para um familiar, fui repreendido. “Devia ter deixado ela sozinha, os dois podiam ter se machucado” foi o que eu ouvi naquela noite.  Mas, na minha cabeça, eu havia feito a coisa certa: eu estava cuidando da minha amiga porque tinha mais habilidade que ela. Pouca, mas tinha. Podia ter me machucado, mas o importante era que os dois estávamos bem ao final.

Esse é um dos milhares de exemplos que eu teria para contar aqui.

Eu hoje (leia bem: HOJE!) me considero uma pessoa boa, mesmo que isso soe como arrogância para alguns. Isso não significa que eu seja correto em todas as minhas atitudes, mas sim que eu me importo com as minhas ações. Pratico minha empatia o tempo todo – não só quando convém -, sou sincero comigo e com os outros, peço desculpas quando erro e tento entender as mais diversas visões de mundo, inclusive as que possam colocar em cheque coisas que eu já tinha assimilado em mim como “verdades absolutas”. Visito antigas histórias, penso nas variações das minhas ações, mudo meu ponto de vista constantemente.

Porém, perdi um atributo importante nos últimos tempos: quando olho para os lados, não consigo enxergar a beleza nas pessoas comuns. Por exemplo: evito pegar o metrô porque não entendo como as pessoas podem se empurrar ou bater com o ombro nos outros e não pedir desculpas, achando que aquilo é normal porque “horário de pico” é assim mesmo. Desculpa: não é, e não deveria ser. Não há civilidade nem respeito.

Estou escrevendo esse texto porque ontem, enquanto caminhava na rua, presenciei um morador de rua meio bêbado avançando para cima de uma mulher. Sem pensar, chamei sua atenção, botei o dedo indicador em riste e engrossei a voz: “Não mexe com ela”. Ele parou, olhou para mim e começou a falar umas atrocidades. A mulher aproveitou a deixa e saiu apressada. Eu botei meus fones de ouvido e continuei caminhando. Mais na frente, ao parar para atravessar o semáforo, um casal de meninas me agradeceu pela minha atitude.

Enfim, aos 33 anos de idade, alguém havia entendido o que eu tinha feito. Respondi “não foi nada” e dei um sorriso, porque realmente – para mim – não fiz mais nada do que a minha obrigação. Quando você se porta de forma neutra em situações desconfortáveis, você está escolhendo o lado do opressor.

Aquilo reativou minha esperança no mundo por alguns segundos mas, infelizmente, foi um sorriso que demorou mais de três décadas para acontecer. Ainda sinto que sou de outro planeja quando sou honesto e gentil com quem não conheço. E isso é muito triste.

Se você, assim como eu, teve uma infância ou adolescência difíceis, mas hoje você se considera uma pessoa boa: continue a ser, mesmo que o mundo pareça irremediável.

Precisamos urgentemente de mais gente como você.