Morrer ou Viver: do que você tem medo?

Morrer ou Viver: do que você tem medo?

Vivemos um paradoxo: a urgência de viver e o desespero em morrer. Corremos dia e noite atrás nos nossos sonhos até o fatídico dia que percebemos que poderíamos estar sonhando o tempo todo.

Recentemente gravei um depoimento para um piloto de um programa de TV, onde me perguntaram “qual é o seu maior medo?”. Me veio uma enxurrada de coisas na cabeça, mas quando abri a boca o que saiu foi “ficar sozinho”. Quem me conhece sabe que essa resposta é inesperada. Justo eu, que sempre fui tão autodidata, tão independente, tão seguro de mim mesmo.

Que mudança foi essa?
Foi um estalo:

SOBRE A MORTE

A morte nunca foi um grande medo, sempre a enxerguei com bons olhos. Não a desejo, mas não a desprezo. Certa vez, numa lavanderia, duas mulheres mais velhas estavam falando sobre a morte de fulano, que era tão jovem e tinha tanto a fazer ainda na vida. Ao perguntarem minha opinião, respondi: acho que mesmo com 100 anos vamos sentir que não vivemos tudo que há pra viver, então qual seria o problema de morrer cedo? Se eu morrer hoje, descanso em paz. Nem preciso falar o estado de choque das duas.

SOBRE A VIDA

A vida sempre me pareceu um emaranhado de fios. De longe pode até parecer uma intervenção artística, mas de perto é obviamente uma zona. Isso com todo mundo. Você vê a garotada na rua despretensiosamente andando de skate, um ator famoso de Hollywood comprando uma mansão, um candidato à presidência do Brasil andando em um jatinho particular e pensa: “cacete, só a minha vida é essa bosta?”. Daí em milésimos de segundo o menino de skate morre atropelado, o ator de Hollywood se enforca porque tinha depressão e estágio inicial de Parkinson e o jatinho do presidenciável cai e ainda desaloja um monte de famílias que não tinham nada a ver nem com o skate, nem com Hollywood, nem com o jatinho.

Pra entender a vida a gente precisa sempre lembrar das pequenas coisas. Porque de longe pode parecer arte moderna, de perto um emaranhado de fios. Mas olhando com muita atenção e prestando atenção nos detalhes, podem parecer milhares de linhas brilhantes de cobre.

SOBRE A SOLIDÃO

Tenho medo de morrer tomando banho e só descobrirem que eu morri depois que o cheiro começar a incomodar os vizinhos. Esse tipo de medo é pior do que o da morte em si, é o medo da minha falta só ser sentida ao incomodar os outros. É aquela história do morador de rua que morreu em um local extremamente movimentado, mas as pessoas só perceberam dias depois. Não tocar a vida dos outros é a pior forma de viver.

Por isso, recentemente, me dei a chance de errar. Muito. Não tenho mais urgência de viver nem sinto desespero em morrer: tenho a necessidade de tocar. Experimentar tudo! Passar raiva e perdoar, dar risada e chorar, amar sem medo de me machucar, dividir sem receio de ficar sem. A melhor forma de viver é, na verdade, embolando todos os fios que você encontrar na sua frente, até você ter um emaranhado tão grande que ninguém, nem mesmo você, é capaz de tirar os nós.

E olha só a ironia a nossa língua: para combater a solidão do “eu”, basta criar uns bons “nós”.