Por que você está tão triste?

Por que você está tão triste?

Você tem um trabalho bacana, ganha bem e gasta confortáveis trinta minutos para chegar nele, acabou de ficar noivo com o grande amor da sua vida e tem um videogame para te acompanhar nos momentos de solidão e diversão.

Então, por que você está tão triste?

Hoje ao sair de casa não demorou um passo para que eu fosse abordado na rua por uma pessoa pedindo dinheiro. Juro: a minha mão não havia saído da porta do prédio ainda. Ao esperar o ônibus, olhava para a praça. Imaginava fazer um piquenique ali, andar com o cachorro, papear com os amigos. Mas tudo que vi foi uma praça decadente, e três moradores de rua dormindo sobre um resto de grama. Ao sair para almoçar, uma nova abordagem: desta vez era uma mulher com uma filha que aparentava ter uns 18 anos. Ela, caolha e bem vestida, me pediu um prato de comida. A abordagem de supetão me fez analisar o pedido na minha cabeça, e eu demorei pra processar. Ela então, olhando para mim com seu olho fixo, suplicou aumentando o tom da voz: “TENHA DÓ DE MIM!”.

Aquilo me assustou.

O dia inteiro me assustou.

Ganhar dinheiro deixou de ser um objetivo de vida pra mim faz tempo. Mas, como vivo numa sociedade capitalista que não tem dó de ninguém – muito menos de mim – eu aceito o pagamento pelo meu bom trabalho em espécie. E, ao mesmo tempo em que não tenho o que reclamar da vida, me pego constantemente triste e reclamando.

A verdade é que eu tenho sim uma posição um pouco mais privilegiada na vida, que eu batalhei muito para obter. Eu reconheço isso todo dia quando acordo, tomo um banho, ponho uma roupa, dou um beijo do meu noivo e vou trabalhar. Mas essa não é a realidade do mundo que eu vivo, e isso me faz sentir culpado. Eu sinto culpa por não ajudar o rapaz na porta de casa, sinto culpa por imaginar um ambiente social numa praça que hoje serve de moradia, sinto culpa por não dar um almoço para a tia caolha e para a filha dela. Mas eu não consigo ajudar a todos, infelizmente.

Ter uma posição um pouco mais privilegiada num mundo decadente é cruel para a alma, porque te obriga a criar uma frieza para conseguir sobreviver. E, ao se tornar frio, você acaba se acostumando a passar por cima dos problemas sociais como quem pula um cocô no chão.

Mas eu não tenho a menor intenção em sobreviver: eu quero viver. E pra viver eu preciso sair de casa e enxergar que os problemas sociais não são regra, mas exceção.

Alguma coisa precisa mudar, e a mudança começará por mim.