Precisamos conversar sobre Cásper Líbero

Precisamos conversar sobre Cásper Líbero

Aos 22 anos de idade eu me formava na Faculdade Cásper Líbero. Ali, no auge da minha juventude, eu achava que sabia muita coisa, mas eu não passava de um grande ignorante no meio da multidão.

Em 2013, já aos 29 anos de idade, eu voltei ao edifício da Avenida Paulista 900, desta vez para trabalhar na Fundação Cásper Líbero. Resolvi aceitar o emprego por dois motivos: era perto de casa, e estava cansado de trabalhar em agências de comunicação, apertando porcas dia após dia. Eu continuava muito ignorante.

Ao entrar na FCL (na recém criada área de Mídias Digitais), recebi a incumbência de cuidar de duas marcas: a TV Gazeta (e seus programas) e a Gazeta FM. Fiquei feliz na época, porque não é sempre que você tem a possibilidade de trabalhar com emissoras de rádio e TV. Mas eu sentia falta de algo mais, então me ofereci para cuidar também do site da própria Fundação que, até aquele momento, não tinha nenhum profissional alocado. Assim poderia trabalhar também textos mais longos. E eu continuava ignorante.

Minha Santa Ignorância

Desde a escolha da empresa, passando pelas marcas atendidas, até a minha prontidão em auxiliar no cuidado ao site da Fundação, nenhuma das minhas atitudes teve como base um conhecimento histórico ou importância ética e moral das empresas. Eu dei muita, mas muita sorte, ao tomar atitudes certas pelos motivos errados.

Eu não deveria vir para a Fundação por ela ser próxima à minha casa, também não deveria trabalhar com a TV Gazeta pelo simples fato dela ser uma emissora de TV, e principalmente não deveria ter escolhido cuidar do site da FCL para treinar textos longos. Eu devia ter feito tudo isso pelo legado deixado por Cásper Líbero, e pela possibilidade de perpetuá-lo.

Já explico: recentemente eu imergi na história da Fundação para a qual eu trabalho, e estudei a vida/obra de seu patrono. E a única coisa que eu pude pensar durante todo o tempo é de que estou num lugar incrível, criado por um cara mais incrível ainda, e que a falta de conhecimento das pessoas sobre isso é um insulto à nossa história.

Diariamente cruzo com estudantes pelo prédio que, de forma completamente ignorante (assim como eu, na mesma época), não fazem a menor ideia de quem foi Cásper Líbero. Acham que é um busto dourado na entrada do quinto andar, e só. O mesmo acontece com alguns profissionais que trabalham aqui. E pior: acontece com milhares de pessoas que passam em frente ao edifício todos os dias.

Uma breve biografia

Cásper Líbero nasceu em Bragança Paulista, interior de São Paulo. Ele nunca foi pobre, mas nunca gozou de fortunas. Se formou advogado, mas sempre foi um entusiasta da comunicação – tanto que tentou criar dois jornais no Rio de Janeiro, mas não obteve sucesso em suas empreitadas. Nesta mesma época em que ele batia com a cara no muro nasceu um jornal chamado “A Gazeta”, em São Paulo.

O impresso começava a fazer sucesso por aqui quando seu fundador acabou falecendo num acidente. O jornal passou pelas mãos de algumas pessoas e entrou em decadência, até que o jovem Cásper Líbero resolveu comprá-lo. Algo inesperado, até porque ele não tinha tanto dinheiro assim para investir, nem um bom histórico de empreitadas. Mas a união deu certo: Cásper prosperou com “A Gazeta”, e o jornal chegou a ser primeiro lugar e circulação no Brasil anos depois.

O jovem, porém, não se deu por satisfeito: investiu pesado no jornal, comprou uma rádio, construiu um prédio que pudesse abrigar seu sonho. Ele era inquieto, e isso fazia com que ele não conseguisse “estacionar” seu desejo de criar um império de comunicação no Brasil.

Ele morreu cedo, vítima de um acidente aéreo. Seu túmulo encontra-se no Obelisco do Ibirapuera, ao lado de outros grandes nomes que participaram da Revolução Constitucionalista de 1932, que culminou na promulgação de uma nova Constituição em 1934.

Adeus Google, olá biblioteca

Cansado de pesquisar coisas pela internet e não encontrar exatamente o que eu buscava, dia desses fui até a biblioteca aqui do prédio – que tanto os alunos quanto os funcionários possuem livre acesso – em busca de um livro que encontrei citado no site da Fundação, escrito por um funcionário que trabalhou por 48 anos na redação do extinto jornal impresso. O livro não constava na base de dados da biblioteca (que, pasme, possui mais de 49.000 títulos), mas eu não me dei por vencido.

Trecho retirado do livro. Sim: Cásper era incrível!
Trecho retirado do livro de Miguel de Arco e Flexa. Sim, Cásper era assim incrível! (clique para ampliar)

E, realmente, ali estava ele: por ser uma relíquia, ele não fica exposto nas prateleiras com outras obras. Peguei aquelas páginas amareladas com cautela, como se estivesse recebendo um mapa de um tesouro que poderia se esfarelar em minhas mãos se não o tratasse com carinho.

Datado de 1954, a obra escrita por Miguel de Arco e Flexa conta detalhes de sua rotina na redação de “A Gazeta”. Ele trabalhou no jornal antes do impresso ser comprado por Cásper Líbero, e esteve presente na data em que Cásper faleceu. Por ser um livro de memórias, e não um documento qualquer lavrado em cartório, resolvi ler com a atenção que ele merecia.

Em uma de suas passagens, ele conta que Cásper mandou derrubar uma pauta que já estava pronta para ser impressa, que falava sobre uma crise política no Marrocos, para colocar em seu lugar uma matéria que falava sobre um carro desgovernado de um Vereador, que acabara por atropelar três pessoas e vitimar uma cozinheira negra, na Rua da Consolação.

Isso já diz muito sobre ele. A instrução de Cásper deixou os jornalistas confusos na época. Afinal, o que era mais importante: a crise no Marrocos ou o atropelamento de uma cozinheira negra na Rua da Consolação? Cásper era incisivo: o atropelamento. E não é porque a política internacional não tenha seu valor, mas ele sabia que o atropelamento influenciaria diretamente a vida das pessoas que trafegavam por aquela região.

Mas Cásper Líbero pregava, acima de tudo, a ausência de sensacionalismo. O jornal cobriria sim o atropelamento, mas pelo ponto de vista jornalístico que ele merecia: teria o acidente tido como causa um problema estrutural na via, ou será que os carros dos vereadores estavam sem a revisão necessária? Qualquer um dos dois problemas poderia causar transtornos muito maiores, e até mesmo outras vítimas.

Esta visão estava tão à frente de seu tempo que, mesmo nos dias atuais, ainda é possível vermos veículos de comunicação se utilizando pura e simplesmente do sensacionalismo como artifício de audiência. O atropelamento ainda hoje não serve para discutir as vias públicas, ou a revisão dos automóveis, mas para mostrar a proximidade da morte na sociedade moderna.

Seu legado

– A TV Gazeta é uma emissora pequena?
– A Fundação está ultrapassada?
– Nem todas as salas da faculdade têm ar condicionado?

Qualquer resposta a estes questionamentos é irrelevante, porque as perguntas são completamente equivocadas.

A TV Gazeta mantém os princípios de seu fundador, mostrando coisas que impactam a vida de quem mora em São Paulo. Mostra política internacional? Mas é claro! Porém, se um córrego na Zona Leste está causando problemas na saúde dos moradores da região, é muito provável que a pauta de política internacional vire uma nota, ou nem seja exibida naquele dia. A prioridade é a qualidade de vida da população agora e sempre.

A comunicação da empresa talvez também não seja tão jovem e ‘fun’ como a do resto do mercado. Mas isso é um ponto de vista discutível: será que uma empresa precisa ser ‘cool’ o tempo todo, ou será que ela precisa fazer o seu trabalho bem feito? O mundo mudou, é claro, e as perspectivas hoje são diferentes daquele tempo em que Cásper era vivo. Talvez por isso o jornal “A Gazeta” não tenha tido fôlego para aguentar o passar dos anos, e por isso a TV Gazeta não seja líder de audiência. Mas veja: nada disso significa que seu conteúdo seja, de forma alguma, ruim. Pelo contrário: você liga a sua TV a qualquer hora, e tem a certeza de que não verá nada moralmente duvidoso.

O prédio da Avenida Paulista 900 não é todo espelhado, ou tem um sistema ultramoderno de ar condicionado, mas é uma estrutura sólida e capaz de prover educação e comunicação de qualidade. O que é uma infraestrutura de ponta frente à possibilidade de mudar o mundo através do aprendizado da comunicação, com embasamento teórico primoroso e uma bela pitada de amor?

O fim é apenas um começo

Cásper morreu antes de curtir sua fama e fortuna. Em seu testamento, seu desejo foi de que sua herança se transformasse em uma Fundação, capaz de continuar seu legado. Ele também estabelecia como objetivo prioritário a criação de uma escola de jornalismo, a primeira do Brasil. Cásper acreditava na construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida, utilizando para isso a educação de qualidade e os meios de comunicação – que deveriam se manter firmes em sua ética, moral e costumes.

Se amanhã ou depois tudo que Cásper construiu vier a ruir, tenho a certeza de que não foi por falta de qualidade de quem manteve as estruturas e o sonho dele vivos, mas sim por eles tentarem sobreviver em um mundo cada vez mais imediatista, superficial, com ética duvidosa e moral desgastada.

Cásper não estava apenas à frente de seu tempo…
Ele está ainda à frente do nosso.