Aquele tumorzinho maligno e sorrateiro…

Aquele tumorzinho maligno e sorrateiro…

Hoje é Dia Mundial da Luta contra o Câncer, e pela primeira vez eu vou falar sobre o quanto aquele tumorzinho maligno mexeu – e ainda mexe – comigo.

INDEPENDENTE DO TIPO, QUEM SOFRE É O CORAÇÃO

O ano era 2002. Ele havia apenas começado a ser um jovem aspirante a Relações Públicas, que voltava para sua cidade natal – a aterrorizante São Paulo – após morar por mais da metade de sua vida numa cidade pacata do interior, acalorada pelo clima e pelo coração da mãe e da avó.

A cidade cinza era fria por dentro e por fora. Por muitos anos me faltou calor na terra da garoa. Além disso, a distância da minha mãe e da minha avó eram maçantes e faziam os dias mais difíceis. Sempre me lembro da primeira vez que fui ao mercado sozinho, comprei carne moída e, ao chegar em casa, comecei a chorar por não saber faze-la – e obvio, liguei para minha mãe aos soluços pedindo o passo a passo.

Aos poucos fui me adaptando com a cidade e a distância daquelas que me criaram com tanto amor, por tanto tempo. Embora tivesse saudades, sabia que o amor de uma pela outra esquentaria seus corações num momento de fraqueza. Mas eu esqueci que a gente não controla o destino.

O tumorzinho maligno e sorrateiro resolveu fazer uma visita para a minha avó pouco depois. Uma rápida visita, que pareceu uma eternidade. Ela se foi deste mundo no mesmo ano, e com ela levou parte do calor que me mantinha feliz, e parte do calor que mantinha minha sanidade.

Foi-se uma parte do chão, junto a uma parte de mim. Chorei escondido por muito tempo… não apenas porque eu havia perdido a minha avó, mas porque ali naquela pessoa moravam também a minha segunda mãe, e a mãe da minha mãe. Chorei pelas três.

A IRONIA E O ARREPENDIMENTO

Voltando um pouco na história: ao mudar para São Paulo no início de 2002, comecei a fumar. Encontrei naqueles recorrentes cinco minutos de tabaco um conforto capaz de me manter afastado da solidão. Foi uma muleta importante na época, ou pelo menos eu achava isso.

A minha avó fumou por muitos anos, desde sua juventude, e tinha parado há 10 anos. Mas isso não foi o suficiente: o tumorzinho visitou seu pulmão como se aquela última década não tivesse existido. Eu demorei esta mesma quantidade de tempo para parar: exatos 10 anos. Se hoje pudesse voltar atrás e nunca ter começado, faria isso.

Me arrependo por não ter honrado a memória da minha avó e demorado tanto tempo para perceber que aquela muleta era uma sentença sorrateira. E mais do que isso: me arrependo de nunca ter contado esta história para ninguém. Ela merece ser contada, e precisa ser ouvida.

Se você conhece alguém que fuma, mostre esta história, mas não force nada – cada pessoa tem o seu próprio tempo de digestão e uma realidade diferente. Se a pessoa estiver disposta, fale que é sim possível parar: todo ano, na data em que parei de fumar, eu publico um texto por aqui falando como tem sido a minha experiência.

Faça a sua parte – da forma que você puder – neste dia tão importante para a nossa saúde.
08 de Março é #DiaMundialDeCombateAoCancer