A internet me envergonha

A internet me envergonha

Oi, eu sou o Marcio e trabalho com Redes Sociais.

Eu abomino a internet.
Acho um lugar cinza e deprimente.

Conceitualmente, ela é sensacional: capaz de proporcionar conteúdos quando e onde você estiver, reduzir as distâncias entre as pessoas e possibilitar que vejamos coisas que talvez jamais conseguiríamos em uma única vida (mesmo com muito dinheiro).

MAS INTERNET É QUALQUER COISA

Eu sei, você sabe, todos sabem que a internet não segue estes conceitos lindos. Os sites de notícia vivem de bizarrices e sensacionalismo, os de vídeo estão transbordando com os mais vazios ‘memes’, as redes sociais são um grande chorume de mimimi e opiniões infundadas sobre qualquer coisa.

Tudo isso com muita publicidade, algorítimos que definem o que você mais gosta de ver e xingamentos.

Para ajudar, a anonimidade da internet, assim como o rosto tampado nas manifestações que tomam conta do país, fazem com que o homem mostre o seu pior: a sua essência.

O grande erro da humanidade sempre foi ditar condutas básicas de respeito, ética e companheirismo no bom senso ou no senso comum. Mas a internet comprova que essas coisas não existem ‘organicamente’, e que a essência do ser humano é ser cruel, ganancioso e depreciativo. Gostamos da maldade… ela é sexy, instiga nossos sentidos e nos faz sentir vivos.

SOMOS MAUS POR NATUREZA

Alguém tem alguma dúvida de que já vivemos a “Evolução” mostrada pelo clipe do Peral Jam em meados de 1998?

Hoje vamos salvar Beagles e sugerimos matar os responsável por maus tratos. Depois, numa manifestação, batemos em policiais e profissionais da mídia, pois eles são mentirosos ou engolidos por um sistema que quer te engolir. Chegamos em casa, tomamos um bom banho, assistimos a novela e dormimos em paz.

Amanhã vamos às ruas conta os aumentos abusivos nos impostos. Quebramos uma ou outra vidraça de banco (estes capitalistas!) e ao chegar em casa vamos para a internet, escrever a nossa opinião numa Rede Social. Algumas vezes escrevemos direto dos nossos smartphones. Preferencialmente da Apple, porque agregam status.

Dois dias depois não existem mais Beagles, nem impostos: é hora de tirar sarro de alguma besteira da internet. Vamos falar sem fim daquele idiota que postou aquele vídeo no YouTube, ou xingar aquele viadinho que perde 18h do dia defendendo a diva pop no Twitter, ou vamos ironizar pessoas com doenças incuráveis, como câncer ou HIV. Vamos chamar negros de macacos e nordestinos de burros. Melhor: vamos desrespeitar todas pessoas que forem diferentes… Quanto mais bullying, mais engraçado.

A INTERNET MOSTRA TUDO

A internet não é um espelho da humanidade, porque nós não nos vemos em seus excessos e bizarrices. Mas a verdade é que nós somos, na nossa maioria, excessivos e bizarros.

O que poucos sabem é os maiores sites hoje delimitam o que merece destaque automaticamente, de acordo com o próprio interesse do usuário. Os de notícia, por exemplo, colocam em sua homepage as matérias mais acessadas, compartilhadas e comentadas. Quando elas param de repercutir, são colocadas de canto e morrem. As redes sociais seguem o mesmo conceito. As buscas do Google, também.

Por isso temos liberdade total para afirmar que a internet não é um espelho, mas um VIDRO: transparente, à prova de balas e capaz de mostrar a humanidade como ela realmente é. Um lugar que mostra o que queremos ver, onde podemos falar o que quisermos e sermos quem realmente queremos.

E se a internet não mostra os homens com clareza, no mínimo mostra como eles se projetam para si próprios.

Por isso eu abomino a internet.
Por isso ela é cinza e deprimente.
Porque ela retrata a nossa horrível humanidade.