Secret: a cereja do bolo fecal da internet

As redes sociais me envergonham, e não é de hoje que eu penso isso. Aliás, tudo começou quando eu transformei uma paixão – a comunicação via internet – em profissão.

Na época em que comecei a trabalhar com produção de conteúdo (em meados de 2005), pouco se falava sobre memes, os blogs eram grandes meios de interação, os aplicativos eram pouco usados e serviam mais para quem curtia jogar, o Orkut funcionava como um canal de relacionamento, comunicação e diversão. Lembra que legal receber um “testemunho” ou mesmo fazer parte de uma comunidade tipo “Eu Odeio Acordar Cedo”?

Aos poucos chegou o Facebook, os blogs começaram a perder público, os smartphones ficaram mais robustos e a privacidade foi se perdendo. Quem viveu a internet da década de 90 sabe: só passava fotos de rosto para outra pessoa no ICQ ou no mIRC quem tinha muita coragem!

Hoje as nossas #selfies estão estampadas em toda e qualquer rede social (criar um fake nunca foi tão fácil). Outra coisa maluca: pede-se o “número do whatsapp” como se fosse um código qualquer… nem parece que é o seu número de telefone, e a dor de cabeça que uma informação valiosa desta pode causar nas mãos erradas.

Não bastasse essa banalização da nossa própria vida, existe o excesso de informação, que fez com que as pessoas desenvolvessem uma habilidade irreversível de só ler uma parte de um texto e achar que leu tudo – ou pior, que entendeu tudo.

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Afinal, a minha vida sexual é super relevante…

Esta semana um aplicativo que já estava por aí há alguns meses, mas só se popularizou recentemente, deu o que falar. O Secret permite que você compartilhe textos e fotos sem se identificar, e isso é enviado para seus amigos, e para os amigos deles.

O aplicativo é, na verdade, a cereja do bolo fecal que a internet virou.

Hoje no almoço a discussão era sobre isso: sou de um grupo de profissionais que não vai “memetizar” a página da empresa só pra ganhar like, não vai produzir uma arte de cunho sexual para ganhar compartilhamento, nem muito menos vai criar um conteúdo controverso só para ser comentado e gerar clique num link. Mas infelizmente faço parte de uma raça em extinção.

Hoje tenho certeza de que continuo criando conteúdos respeitosos e criativos para as Redes Sociais, remando contra a maré e angariando um público bem pequeno. Bem pequeno mesmo. Espero que a internet, que o povo e que o conceito predominante na internet mudem. Não por mim, mas pela sanidade mental das próprias pessoas que acessam ela diariamente.

Mas depois do Secret, estou começando a perder as esperanças e a desenhar o plano B: talvez mudar para o interior, cultivar uma bela horta, abrir um café e – o principal – cuidar da minha vidinha o mais offline possível.